O S55 em poucas linhas
Lançado em 2014, o S55 é um seis cilindros em linha de 2.979 cm³ alimentado por dois turbos, um para cada grupo de três cilindros. O diâmetro é de 84 mm, o curso de 89,6 mm e a taxa de compressão de 10,2 para 1. Ele deriva do N55 dos 335i e 435i, mas foi bastante reforçado para o uso esportivo.
O bloco é do tipo closed-deck, mais rígido que o do N55, os cilindros recebem um revestimento projetado no lugar das camisas clássicas e a alimentação fica a cargo de duas bombas. São esses reforços que permitem a ele aguentar potências bem acima das de fábrica.
A potência varia conforme a versão: 431 cv nos M3 e M4 básicos, 450 cv com o pacote Competition, 460 cv nos M3 CS e M4 CS, 500 cv no M4 GTS. O M2 Competition recebe o motor com 410 cv e o M2 CS com 450 cv. O torque fica entre 550 e 600 Nm.
Ele está no M3 F80 de 2014 a 2018, no M4 F82 cupê e F83 conversível de 2014 a 2020 e no M2 F87 nas versões Competition e CS até 2021. O sucessor, o S58, equipa a geração seguinte.
O cubo do virabrequim: do que estamos falando exatamente
O cubo do virabrequim é a peça montada na ponta do virabrequim que aciona a corrente de distribuição. Ele sincroniza o giro do motor com a abertura das válvulas. Se ele se mexe, mesmo pouco, o motor sai do ponto.
No S55, assim como no N55 de onde vem o projeto, esse cubo não é travado mecanicamente no eixo. Não há chaveta nem pino. Ele é preso por um único parafuso central e uma arruela de atrito: só o aperto impede que ele gire.
No uso normal, esse aperto basta com folga. O problema aparece com cargas muito altas e bruscas: arrancadas repetidas com launch control, reduções violentas ou, principalmente, a pressão extra nos cilindros que uma preparação traz. A união por atrito pode então escorregar.
Quando o cubo gira sobre o eixo, a distribuição sai do ponto. No melhor caso, o motor entra em modo de emergência com um alerta. No pior, válvulas e pistões se encontram, e a conta muda de escala.
Quem está realmente exposto
É o ponto mais mal compreendido. Os relatos disponíveis colocam a frequência abaixo de 1 % dos motores S55, e a grande maioria dos casos envolve carros preparados ou usados intensamente em pista.
Num M3 ou M4 totalmente original, rodando na rua, o risco existe mas é baixo. O cubo foi dimensionado para a potência de fábrica, com margem.
A história muda quando a potência sobe. Um simples remap acrescenta muito torque, e é justamente o torque, aplicado de repente, que exige da união. Some arrancadas repetidas com launch control e você tem o perfil típico do carro que acaba girando o cubo.
Em outras palavras, diante de um S55 seminovo a pergunta não é só se o motor tem defeito, mas como o carro foi usado e se foi modificado.
Os sintomas, e por que chegam sem aviso
Diferente de uma corrente que se desgasta e acaba fazendo barulho, o escorregamento do cubo não dá sinais antes. Não é peça de desgaste que se ouve envelhecer: escorrega de uma vez, sob uma carga específica.
Os sinais aparecem depois: alerta de falha no trem de força, modo de emergência, marcha lenta irregular, trancos e falhas de ignição. A central detecta que o ponto mudou e avisa.
Se acontecer com você, não continue rodando. Um ponto que mudou dentro de limites toleráveis se corrige com a troca do cubo. Um motor forçado nesse estado corre o risco de contato entre válvulas e pistões.
A solução: um cubo travado
O remédio é conhecido e muito testado: trocar o cubo de fábrica por um de peça única, com chaveta ou pino, travado mecanicamente no virabrequim. Ele não gira mais, seja qual for a carga.
Em carros preparados ou de pista virou uma modificação quase obrigatória, muitas vezes feita junto com o remap. Conte com algo em torno de R$ 7.800 a R$ 13.000 entre peças e mão de obra conforme a oficina, porque o serviço exige recolocar a distribuição no ponto com precisão.
Existem também soluções preventivas mais simples, que reforçam o parafuso central sem trocar o cubo. Elas reduzem o risco, mas não oferecem a mesma garantia de uma trava mecânica.
Num M3 ou M4 original rodando na rua, a modificação não é indispensável. Mas vira um argumento real de negociação num exemplar preparado que não a recebeu.
Os outros pontos fracos e o orçamento
O cubo domina o debate, mas não é o que mais vezes vai custar dinheiro a um dono. Estes são os itens que se repetem, com ordens de grandeza observadas no Brasil.
Cubo travado (preventivo)
R$ 7.800 - 13.000Quase indispensável num carro preparado.
Motor danificado
a partir de R$ 52.000Se o cubo escorregou e válvulas e pistões se tocaram.
Tubo de pressurização
R$ 1.600 - 3.100De plástico, trinca principalmente depois de preparação.
Tampa de válvulas
R$ 2.100 - 4.100Junta vazando, tampa de plástico que trinca, por volta de 120.000 a 160.000 km.
Suporte do filtro de óleo
R$ 800 - 1.800Junta vazando, às vezes já a partir de 80.000 km.
Limpeza da admissão
R$ 2.600 - 4.700Manutenção programada, típica da injeção direta.
Os vazamentos de óleo, o dia a dia real do S55
A junta da tampa de válvulas é o vazamento mais comum. Pode aparecer por volta dos sete anos e fica frequente entre 120.000 e 160.000 km. Os sinais: cheiro de óleo quente, fumaça do lado do passageiro, alerta de nível de óleo ou óleo nas roscas das velas. A própria tampa, de plástico, pode trincar com o calor.
A junta do suporte do filtro de óleo vem logo atrás. É um reparo simples e barato se pego cedo, mas o óleo que escorre na correia de acessórios pode danificá-la se você deixar para depois.
A junta do cárter vaza mais raramente e mais tarde, acima de 160.000 km. A peça custa pouco, mas o serviço exige baixar o subchassi, o que leva a conta para algo em torno de R$ 4.100 a R$ 6.200.
Nenhum desses vazamentos é grave em si. Eles viram problema quando são ignorados: um nível de óleo que cai sem ninguém acompanhar é o começo de problemas bem mais sérios.
O que o chassi e o histórico mudam
Nos M2, M3 e M4, a primeira pergunta não é mecânica, é comercial: qual versão você tem de verdade na sua frente? A diferença entre um M4 básico, um Competition, um CS e um GTS chega a centenas de milhares de reais, e um emblema se cola em cinco minutos.
A decodificação do número do chassi informa a versão exata, a data real de produção e os equipamentos de fábrica. É a única forma confiável de confirmar que um CS é um CS, ou que um carro anunciado com o pacote Competition saiu de fábrica com ele.
O histórico de manutenção completa o quadro: regularidade das trocas de óleo, serviços na rede autorizada, eventual troca do cubo ou do tubo de pressurização. Uma preparação feita fora da rede, por outro lado, não aparece necessariamente: nesses modelos, pergunte de forma explícita e peça as notas.
É a combinação das duas coisas que vale ouro. Um M4 Competition autêntico, revisado na rede, original e com histórico regular é uma compra tranquila. O mesmo carro, com remap sem cubo travado e sem registro de manutenção, é uma aposta.
A manutenção que faz a diferença
A troca de óleo continua sendo o primeiro item. Os intervalos longos previstos de fábrica são considerados espaçados demais para um motor desta potência: a prática comum entre donos bem informados é baixar para algo em torno de 8.000 a 10.000 km, com óleo que atende à norma da fabricante.
Acompanhar o nível do óleo entre as trocas é a melhor forma de pegar cedo os vazamentos descritos acima. Num carro usado em pista, óleo cansado e bronzinas exigidas não combinam: alguns donos de carros muito exigidos trocam as bronzinas de biela de forma preventiva.
A limpeza da admissão por jateamento com casca de noz faz parte da manutenção programada, já que a injeção direta torna os depósitos inevitáveis com os anos. A troca de velas, mais frequente num motor preparado, segue a mesma lógica.
A preparação: por que muda toda a conta
O S55 é um dos motores BMW mais fáceis de fazer render mais. Um remap e algumas peças passam com frequência dos 500 cv, e preparações mais pesadas com turbos e internos reforçados vão além dos 700 cv.
Essa facilidade tem um lado ruim óbvio: o mercado de seminovos tem muitos carros modificados, uns bem feitos, outros não. E é justamente nesses carros que o cubo, o tubo de pressurização e as bronzinas mais trabalham.
Um S55 preparado a sério, com cubo travado, tubo de pressurização metálico, manutenção frequente e notas, pode ser uma ótima compra. Um S55 com remap feito às pressas, sem nenhum desses cuidados, soma todos os riscos do motor.
Qual M2, M3 ou M4 escolher
O M4 cupê F82 é o mais comum, portanto o mais fácil de achar e comparar. É também o que tem mais oferta de exemplares preparados: o histórico pesa ali mais do que em qualquer outro.
O M3 sedã F80 oferece a mesma mecânica com quatro portas e costuma sair um pouco mais barato com a mesma quilometragem. Um ótimo meio-termo para o uso diário.
O M2 Competition, mais compacto e leve, recebe o S55 com 410 cv. Muitos o consideram o mais equilibrado da família, e o preço dele segue firme.
As versões CS e GTS jogam em outra categoria, a das séries limitadas. O valor delas depende inteiramente da autenticidade: nesses carros, conferir pelo número do chassi não é precaução, é pré-requisito.
Checklist antes de comprar um M2, M3 ou M4 com motor S55
A ordem a seguir.
- ·Decodificar o chassi: versão exata (Competition, CS, GTS), data real de produção, equipamentos de fábrica.
- ·Perguntar se o carro foi preparado e pegar as notas de cada modificação.
- ·Num carro preparado, conferir se foi instalado um cubo travado.
- ·Ler o histórico: regularidade das trocas de óleo, serviços na rede autorizada.
- ·Mandar ler os códigos de falha, principalmente os ligados ao ponto da distribuição.
- ·Conferir se não há vazamentos em volta da tampa de válvulas e do suporte do filtro de óleo.
- ·Perguntar sobre o uso: rua, pista, arrancadas frequentes com launch control.
- ·Orçar o que falta fazer e incluir no preço.
É preciso ter medo dele
Não, desde que você coloque o cubo do virabrequim no seu devido lugar. É um risco real, mas raro, concentrado num perfil preciso: preparado, dirigido com brutalidade, sem o cubo travado que resolve a questão.
No resto, o S55 é um motor robusto, cujos pontos fracos comuns se resumem a vazamentos de óleo clássicos e à manutenção típica da injeção direta. Nada que justifique fugir de um M3 ou M4 bem cuidado.
A regra de verdade nesses modelos é a de toda a linha M: pagar por um carro autêntico e documentado, e não por uma potência anunciada. É exatamente isso que o número do chassi e o histórico permitem conferir.